terça-feira, 14 de outubro de 2008

Amnésia

Pena que tu não lembres
das dores de ouvido.
Das noites em claro.
Do pai e mãe num mesmo corpo.
Pena que tu não lembres
do que fomos nós,
mas a vida é assim.
A falta de memória nos abate
e sucumbimos à ela.

E Finda-se o Poeta

a vida cessa pouco a pouco
e eu como um louco
submeto-me!
Não importa!
Dez minutos ou
dez anos.
Quem dirá afinal?
O que a lápide fria abrigará?
Um grande homem?
Um fraco?
Tanto faz afinal.
E no final, um verme infeliz
haverá de alimentar-se com
as indigestas sobras
do que foi este poeta!

domingo, 12 de outubro de 2008

Tanto Faz

Desistindo,
ora sorrindo,
indo ou vindo.
Ainda sentindo.

Tanto faz;
que o tempo não volte atrás.
Tanto fez;
que ainda recorde a tua têz.
Tanto, enfim;
se não gostas de mim.
Tanto amor,
que ecoa a cada clamor.
Tanta vida,
para suportar tal ferida.
Tanto,tanto e tanto.
Que emudeceu-se meu canto!

sábado, 11 de outubro de 2008

A minha vida é um barco abandonado


A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado ?
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Fernando Pessoa