E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Drummond
Somos um produto ainda em fase de construção, fruto das amizades que temos, do universo que nos rodeia, das lembranças, vivências e sobrevivências.
segunda-feira, 19 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.
Pablo Neruda
quarta-feira, 14 de março de 2012
Vida Estranha
Ah vida, vida,
estranha vida.
Não vou te rimar
com sofrida.
Faço versos dos caminhos
Faço dos versos guarida.
Se não fossem os passarinhos,
Não fosse a paixão desmedida,...
Eu cá com dragões e moinhos,
Suando as vestes na lida;
Sonhando em sonhos, carinhos,
chorando mil despedidas!
terça-feira, 13 de março de 2012
Poeminho Fujão
Um poeminho fugiu de casa.
Foi visitar, sorrateiro,
sua musa inspiradora.
E feito poema faceiro,
Pegou carona numa brisa mansa;
Brincou de voar feito criança.
Afagou as dozelas da rua,
espiou uma guria nua.
Depois beijou sua diva
Deu meia volta e voltou
Fê-la sentir-se viva.
Sorriu para ele e cantou,
(virou música de bar)
e uma lágrima arriscou!
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